dAf 60
PUAUX Olivier, PHILIPPE Michel
Archéologie et histoire du Sinnamary du XVIIe au XXe s. (Guyane)
Introdução
A construção de uma barragem hidrelétrica na localidade de Petit Saut, situada às margens do Sinnamary, quinto rio da Guiana Francesa, originou a implementação da primeira operação de resgate arqueológico programado nesse departamento, entre 1990 e 1995. Os 310 km2 de superficie do futuro lago de retenção da barragem constituíram o espaço físico para o desenvolvimento das pesquisas históricas e arqueológicas.
Parte 1 - Formação, composição e contexto físico de uma colônia nos séculos XVII e XVIII
1 Nova território, novas paisagens
Os primeiros documentos de que dispomos sobre a região de Sinnamary remontam à segunda metade do século XVII. A Relação das Missões dos Jesuítas do padre de la Mousse (1684-1699) parece ser o primeiro depoimento escrito da existência de índios que viviam no curso superior do rio Sinnamary. Mas, somente no século XVIII, com as primeiras explorações relatadas, foi possível fazer um levantamento dos conhecimentos sobre o povoamento ameríndio ao longo das margens dos rios Sinnamary e de seu principal afluente, o Courcibo, antes da chegada dos primeiros colonos europeus à região. Estes exploradores eram principalmente cientistas e seus depoimentos são ricos em descrições. Botânicos (Fusée-Aublet) e mineralogistas (Leblond, Chapel) contaram com o acompanhamento de índios do rio Sinnamary para a realização de seus trabalhos.
O estudo arqueológico é baseado nesses depoimentos, nas prospecções-inventários e mais particularmente na cartografia e na toponímia (cf. anexo 2). Os mapas antigos, notadamente os de Dessigny e Préfontaine, possibilitaram, através de sua precisão topográfica sobre as aldeias e carbets ameríndios no curso médio do Sinnamary e do Courcibo, guiar as prospecções ao longo das margens. Vários locais foram objeto de escavações com a obtenção de datações através de 14C. Entre estes, do n° 20 (Poudoupoudouli) foi extraído mobiliário europeu associado a material galibi no inicio do século XIX.
2. O estabelecimento de uma nova colônia
A instalação dos jesuítas no inicio do século XVIII permitiu reunir as populaçoes indígenas em tome das suas missões. A de Sinnamary foi uma das mais prósperas, até o seu desaparecimento, por volta de 1759-60. A partir desta data, nós podemos acompanhar mais facilmente a evolução do vilarejo novo de Sinnamary e as relações caóticas entre os colonos e os índios. As trocas regulares de correspondência entre a metrópole (Ministério da Marinha e das Colônias, Choiseul) e a administração local (Govemador Redmond) permitem perceber bem as incompreensões existentes em ambos os lados do Atlântico. Como a nova colônia é considerada um instrumento de testagem, é submetida a pesquisas, investigações e relatórios sobre a organização do vilarejo, as relações com os índios e os negros marrons (escravos revoltados contra os seus mestres holandeses) e a implantação ideal para colonos...
Entretanto, a vida se perpetua bastante mal no seio desta população heterogênea (sentenciados, imigrantes canadenses que fugiam dos ingleses), composta por múltiplas culturas : crioulos, alemães, franceses, que conviviam com índios cada vez mais distantes. A economia desenvolvida era principalmente agrícola (cultura do algodão, guarda de tartarugas) e artesanal, com uma administração extremamente e até mesmo demasiadamente presente (polícia e segurança da colônia, hospital). O vigor demográfico dos crioulos suplantou pouco a pouco a baixa natalidade dos primeiros colonos brancos. A chegada, nos últimos anos do século, de um contingente de políticos banidos pela Revolução (entre os quais se encontravam grandes nomes) e de padres refratários, fornece o único contingente conseqüente, mas extremamente efêmero e irrisório, a uma colônia que continua a buscar um ideal de vida em meados do século XIX.
Parte 2 - Os eixos do desenvolvimento nos séculos XIX e XX
1. Uma nova Califórnia
O ouro foi descoberto em 1854 na Guiana, mas só em 1866 sua presença foi atestada na bacia do Sinnamary. A corrida do ouro começou então e prosseguiu por cerca de 70 anos. A exploração, artesanal no início, tornouse rapidamente industrial : quatro dragas auríferas funcionaram na bacia do Sinnamary a partir de fins do século XIX, sendo que uma delas esta em grande parte conservada (cf. anexo 3). Até a Segunda Guerra Mundial, os placers (jazidas de ouro) eram geridos por numerosas empresas de exploração, a mais importante das quais foi a empresa Saint-Elie, que se transformou na SNEAV. O ouro atrai também os «bricoleurs ", trabalhadores mais ou menos bem organizados que agiam por conta destas empresas. A SNEAV, no decorrer dos anos 30, empregou cerca de mil pessoas de diversas nacionalidades (chineses, ingleses, brasileiros, etc.), mas global mente a indústria aurífera na Guiana jamais registrou a expansão esperada. As prospecções e escavações arqueológicas nos vilarejos de garimpeiros revelaram sobretudo material de exploração, em particular peças sobressalentes de dragas, e mais raramente mobiliário usual (essencialmente garrafas). Por outro lado, a configuração desses vilarejos é conhecida através da narrativa de Savaria (1933). No placer de Adieu Vat, explorado de 1866 até a Segunda Guerra Mundial, foram observados numerosos vestígios da exploração: via férrea, vagonetes, caldeiras, trituradores, etc.
2. A colônia penal anamita de Saut Tigre
O campo de Saut Tigre é um dos três estabelecimentos penitenciários especiais (EPS, Decreto de 22 de janeiro de 1931) da Guiana. Instalada às margens do Sinnamary, esta colônia penal acolhia condenados indochineses, políticos em sua maioria. Os prisioneiros (efetivo de cerca de 200 homens em 1933 e de 130 em 1944), dirigidos por militares, construíram, às custas de muitas vidas, pontes, estradas, acampamentos e concessões agrícolas. Estas obras foram realizadas no âmbito do aproveitamento do território de Inini, em conformidade com a vocação destes EPS.
O campo, situado na margem esquerda do rio, era organizado ao longo de um caminho paralelo ao curso de água ao qual se ligam duas vias perpendiculares : o caminho se prolonga através de uma curva que se une a uma das perpendiculares. Segundo as plantas antigas, as prospecções e as sondagens arqueológicas, o campo dispunha de pelo menos 12 prédios de alvenaria ou de materiais degradáveis, de uma prisão, de latrinas e de habitações. Tinha também dois fomos anexos às habitações e duas pontes de madeira se elevavam por sobre pequenas enseadas. O cemitério (18 sepulturas conservadas) era situado na margem oposta ao campo.
Conclusão
Este vasto estudo arqueológico, histórico e toponímico de uma bacia fluvial representa uma experiência científica inédita para a Guiana. Seu objetivo é mostrar as múltiplas dificuldades (e por vezes as inconseqüências) políticas, econômicas e sociais das implantações coloniais sucessivas, as relações com os indígenas, a busca incessante de recursos vitais : o ouro, a floresta, o solo e até mesmo homens, sem esquecer, naturalmente, a preocupação permanente de domesticar o rio Sinnamary.
Anexos
1. O balatá
M. PHILIPPE
A exploração desta madeira, utilizada, entre outras finalidades, para obras de carpintaria ou de escultura, demonstra uma atividade pouco dinâmica que se desenvolveu em fins do século XIX na região do Sinnamary.
2. Toponímia da bacia do Sinnamary
O. PUAUX
Distribuição geográfica dos topônimos : setores de intervenção, repartição por setor, índice, dicionário (localização, coordenadas, fontes, correspondências toponímicas, sítios associados, comentários).
3. A draga Courcibo
R. PICAVET
A draga Courcibo, bastante encalhada, se encontra num estado de vetustez avançado : 58 % conservados, ou seja, uma massa de 205 t. Reconstituição do tratamento : elevação dos minerais por meio das caçambas. Os sedimentos são fluidificados e conduzidos para mesas primarias e depois para mesas secundarias munidas de «rifles., onde sao retidas as palhetas de ouro.
4. Concessões auríferas entre 1900 e 1914
O. PUAUX
Repartição por tipo de alvará e listados concessionários de explorações auríferas entre 1900 e 1914.